terça-feira, 23 de junho de 2009

Cecília de Assis Brasil: a erudição e a paixão pelo campo




Finalmente chegou o livro que havia comprado de um sebo através da internet. É o “Diário de Cecília de Assis Brasil”, compilado por Carlos Reverbel em 1983. Há muito gostaria de tê-lo, pois já havia lido há alguns anos e, ademais, em livrarias não é possível encontrá-lo. O diário de Cecília, além de ser uma arte na escrita de uma moça gaúcha, é emocionante pela paixão que ela mantinha pelo campo e pelos ideais de sua família, como podemos ver abaixo:

[...] Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora?

Cecília, filha do segundo casamento de J.F. de Assis Brasil, não faz simplesmente um diário pessoal, mas descreve e explora toda conjuntura de uma época marcada pela revolução de 1923, cujos expoentes são J.F. Assis Brasil, seu pai, e Borges de Medeiros. Isso, aliás, é uma fato importantíssimo, pois o diário não serviu apenas como registro do cotidiano familiar na granja de Pedras Altas e no exílio na Estância Bela Vista, em Melo no Uruguai; o diário vai além e desvela a situação política do Rio Grande do Sul.

É por isso que o diário me fascina, pois Cecília não foi uma garota que escrevia sobre amores e coisas do gênero; ela, de uma certa maneira, vai de encontro aos pensamentos de muitas de suas contemporâneas. Cecília era diferente das meninas de seu tempo. Nascida em Washington, no dia dia 26 de maio de 1899, sempre foi adepta à boa educação e informada quase que diariamente por revistas como a Life e Les Annales; lia clássicos e adorava poemas do Henry Longfellow. Não casou e morreu aos 35 anos, atingida por um raio quando cavalgava em umas das propriedades do pai em Pedras Altas.

A conturbada e efêmera vida política do pai influenciou muito no pensamento dela e, com certeza, foi de maneira singular que Cecília nos contribui com sua erudição e sua afeição às coisas mais simples de uma vida bucólica; ao mesmo tempo, sem deixar de lado o apreço à cultura, ao engajamento político da família e inclusive as suas outras irmãs. Com imensa paixão, Cecília comandava a casa na ausência de seus pais e, mesmo em tempos de guerra, sempre esteve à frente como representante da família, como observamos no seguinte trecho:

[...] É quase certa uma revolução, quando o Borges tomar posse. Os jornais publicam um telegrama do papai, aconselhando calma e dignidade diante das provocações, e a reagir com energia diante de ataques materiais... Decidimos esconder o que pudermos, sem dar nas vistas. Subi ao esconderijo, feito a propósito. Auxiliada pelas manas, lá depositei diversas pastas de papéis, com a maior economia de espaço... Imagino só a aflição da mamãe, tão longe de nós.[...]

É nítido no diário o poder que as mulheres mantinham na casa da família Assis Brasil; J. F. Assis Brasil teve 8 filhas!!! E certamente, o pensamento de Cecília e de suas outras irmãs (outro dia escrevo sobre Joaquina, chamada carinhosamente de Quinquim) contribuiu e muito para a libertação da mulher, para mostrar que a mulher não precisa estar em segundo plano, obedecendo às exigências do marido. A mulher, nos moldes de Cecília, dever ser a mulher culta, sagaz e politicamente ativa.

Cecília é inspiradora e por esse motivo escrevi sobre ela. Além disso, escrevi também porque simplesmente a paixão por Pedras Altas e pelo Castelo é-me inextricável. Nasci e cresci por aquelas bandas e tive, por sorte, a oportunidade de ver/conviver na granja de Pedras Altas. Tive acesso aos manuscritos de Cecília, às fotos da família, à imensa e maravilhosa biblioteca e fui, acertadamente, influenciado pelos ideais desta maravilhosa história. Rodrigo e Lydia Assis Brasil, respectivamente bisneto e neta de J.F. Assis Brasil, tiveram grande influência na minha formação como pessoa e como cidadão e são, portanto, responsáveis pelo meu amor pela granja de Pedras Altas, pela sua história, beleza e patrimônio.

Orquestre-se. Publique-se

Referências:

ASSIS BRASIL, Cecília de. Diário (1916-1928). Porto Alegre: L&PM, 1983.

BASTOS, Maria Helena Camara. O diário de Cecília de Assis Brasil (1916-1928): práticas de leitura de uma moça gaúcha. In: BASTOS, Maria Helena Camara; CUNHA, Maria Teresa Santos; MIGNOT, Ana Chrystina Venancio (orgs.). Refúgios do eu: educação, história e escrita autobiográfica. Florianópolis: Mulheres, 2000. p. 145-180.

KERN, Daniela. Cecília de Assis Brasil, a cronista de Pedras Altas. In: Revista Letras de Hoje Especial. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006.

REVERBEL, Carlos. Introdução. In: ASSIS BRASIL, Cecília de. Diário (1916-1928). Porto Alegre: L&PM, 1983. p. 5-10.
Site visitado: http://www.assisbrasil.org/. Acessado em: 22/06/09

4 comentários:

Bruno disse...

Muito interessante Magnum.
É ótimo estudar a verdadeira história do nosso estado e dessas figuras esquecidas. Apesar de ser uma pena não encontrar esses tópicos em manuais escolares.
Abraço!

Chris disse...

Magnun

O Castelo de Pedras Altas parece como algumas casas aqui em Bath. Bem que nós poderiamos ter feito uma excursão para PA...???
Bjs

Anônimo disse...

Tão tocante este Diário e o modo expecional como ela fala das coisas simples do cotidiano! Parabéns pela sugestão! :)

Ass: Felipe

amourinha disse...

Um dos melhores livros que já li.