sexta-feira, 24 de julho de 2009

Mânica ou manica? O acento em Português

Aproveitando as férias e as inquietações de uma colega minha, a "queridaline", com a pronúncia do seu sobrenome pelos professores, em especial a de Psicologia Jurídica, tentarei orquestrar ou deixar um pouco mais clara a questão do acento (encarado aqui como a proeminência de uma sílaba) no Português.

O problema da colega é que seu sobrenome, "Mânica", tem proeminência na borda esquerda da palavra, ou seja, o acento lexical fica na sílaba "ma". Entretanto as pessoas insistem em ler "manica", com a sílaba mais forte em "ni". A pergunta é: por que a falta de uma representação gráfica, no caso o "^", faz tanta diferença?
Bisol (1992), em uma análise métrica do acento, diz que para elaborar a regra do acento devemos utilizar duas noções importantes, sejam elas, o peso silábico e o pé métrico. As exceções serão resolvidas através do recurso da extrematricidade (o nosso caso).
Afirma Bisol:
Regra do Acento Primário:

a) atribua (*) à sílaba pesada final;
b) Nos outros casos, forme um constituinte binário com proeminência à esquerda, do tipo (*...), junto à borda direita da palavra.
A regra, portanto, é sensível ao peso da sílaba, sendo o acento atribuído às oxítonas terminadas em consoante ou ditongo, como pomar, troféu, pastel.

Aplicando (a):
po.mar, tro.féu, pas.tel
.....(*)..........(*)...........(*)



Se a sílaba final não for pesada, o acento cairá sobre a segunda sílaba, contando a partir da borda direita da palavra. Por exemplo, cama, tomate e borboleta (notem que as sílabas finais não são acompanhadas de consoante ou formam ditongos).
Aplicando (b):

ca.ma. to.ma.te, bor.bo.le.ta ----->> ma.ni.ca
(*......),,,,,(*....)..............(*....)..................c(*.....)

Notemos que com (b) conseguimos explicar o porquê de as pessoas lerem manica, ou seja, ao ler a palavra, a pessoa aplica (b) assim como a aplica para todas as palavras que têm este tipo de estrutura. É uma questão rápida e processada automaticamente em nossa mente, não precisamos decorar tal regra para aplicá-la, pois o funcionamento da língua assim determina.

Mas e por que mânica precisa de "^" para que seja lida corretamente?
Para dar conta disso, precisamos recorrer à noção "extrametricidade" que explica por que em determinadas línguas o acento não cai na última sílaba, mas na penúltima ou antepenúltima incidindo, ainda, sobre exceções. No caso de "mânica", a extrametricidade incide em função de ela ter acento na terceira sílaba "ma". São os casos de rápi(do), fósfo(ro), árvo(re). Nestas palavras, a sílaba entre ( ) se torna invisível, quando em formação da palavra, à regra que explicamos anteriormente. Além de configurar casos de exceção, essas palavras fogem ao padrão do Português e por isso devem receber a notação gráfica.
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Sendo assim, todas as palavras proparoxítonas do Português precisam de uma representação gráfica tal como ^, ´, para que as pessoas não apliquem a regra geral do acento primário e leiam, dessa forma, erroneamente.
Orquestre-se. Publique-se.
Notas:
Peso silábico: sílabas leves - pas.to, man.ta, etc., ou seja, sem consoante após a vogal núcleo. sílabas pesadas - par.te, cas.ta, man.ta, pai, com consoantes após a vogal nuclear.
Acento: as línguas podem ter três tipos básicos de acento, a saber: a) acento primário - é o acento mais forte de uma palavra. Ex.:casa. b) acento secundário - é o acento relativamente menos forte que o acento primário de uma palavra. Ex.: docemente. c) acento principal - acento mais forte de uma sequência de palavras. Ex.: vamos cantar.

Fonte:
BISOL, Leda (org). Introdução a estudos de fonologia do Português Brasileiro. - 4. ed. rev. e ampl. - Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

5 comentários:

Anônimo disse...

Magnun,
Podemos explicar o caso da tua colega com basena noção de exceção linguística. Tudo o que foge ao padrão da língua é marcado com algum sinal gráfico; proparoxítonas constituem, apenas, cerca de 10% das palavras da língua. Devem ser, por isso, assinaladas com acento ortográfico.

Parece mentira, mas é o mesmo princípio que regula a pontuação, por exemplo.

Magnun Rochel disse...

Sim.... foi nesse sentido que tentei argumentar a necessidade da representação gráfica.

Chris disse...

Magnun querido

Apesar da fonologia não ser uma das minhas paixões, admiro e cada vez mais vejo a sua importância quando leio algo escrito por algum apaixonado por ela. Tudo tem a sua explicação. E ainda mais dito por ti, de uma forma muito didática. Um grande beijo inglês...
Chris

Anônimo disse...

Apenas uma sugestâo..
Ainda que concordem razoavelmente em suas descrições dos dados lingüísticos, as análises tradicionais do acento no PB, todas elas baseadas em uma visão formalista da linguagem, discordam em inúmeros aspectos, quando chega o momento de interpretar os dados. As análises disponíveis podem ser agrupadas em basicamente quatro perspectivas teóricas: estruturalismo (CÂMARA JR., 1970, 1977), gerativismo (LEITE, 1974), Fonologia Métrica (BISOL, 1992; CAGLIARI, 1999; LEE, 1995; MASSINI-CAGLIARI, 1995) e TO (LEE, 2007; MASSINI-CAGLIARI, 2003; WETZELS, 2006). No entanto, todas acabam invariavelmente encontrando problemas que fogem a uma explicação coerente com a abordagem teórica a que se filiam e freqüentemente se vêem às voltas com graves problemas teóricos e empíricos. Um tal status quaestionis parece colocar em jogo a própria possibilidade de explicação razoável do acento no PB por meio de teorias formalistas, por reduzirem o sistema da língua a um conjunto organizado de regras/restrições, que transformam formas discretas e estanques de input em formas previsíveis de output. Com isso, essas teorias se restringem a explicar todas as possíveis generalizações (informações redundantes/previsíveis) em termos de aplicação de regras e geração de outputs, não comportando explicações que envolvem variação ou efeitos de freqüência, sendo avessas a explicações de ordem diacrônica ou funcional.
Assim, vale a pena, colega Magnuns, dar uma olhada nas abordagens baseadas no uso que dão conta - ou tentam dar conta - do acento... além do mais, para explicar a necessidade da marca gráfica em "Mânica" basta recorreres á simples explicação de que há uma fuga em relação ao padrão do PB, que é o paroxítono, tendo em vista que o papel do pesquisador é de simplificar e não de repassar teorias.
Contudo, adorei a tua iniciativa. Continue.

Magnun Rochel disse...

Caro Anônimo,

Você tem toda a razão!!!!!!! E sei dos vários problemas que as abordagens formalistas têm. A própria noção de extrametricidade da Fonologia Métrica não me desce, mas o objetivo foi tentar explicar de uma maneira dieferente das Gram. Normativas, tornando a explicação mais fácil para leigos.
Obrigado pelo comentário e espero que continue lendo o blog. Suas intervenções serão sempre bem-vindas!!!!! :)