quinta-feira, 19 de maio de 2011

Deixem em paz a nossa língua - Lya Luft

Texto de Lya Luft publicado originalmente na Revista Veja


 
Nasci com essa paixão, esse encantamento pelas palavras. Quando pequena,  repetia para mim mesma as que achava mais bonitas: pareciam caramelos na minha boca. Colecionava mentalmente as mais doces, como translúcido, magnólia, borbulha, libélula, e não sei quais outras. Lembro que por um tempo detestei meu nome curtinho e sem graça: pedia a minha mãe que o trocasse por algo belo como Gardênia, Magnólia, Virgínia. Açucena me fascinou quando o li no meu livro de texto no 1º ano da escola, e quis me chamar assim. Mas eu queria muitas coisas impossíveis. Como lia muito (minha cama era embutida em prateleiras onde, em horas de insônia, bastava estender a mão e ter a companhia de um livro), a linguagem cedo fez parte da minha vida como as ficções. Eu lia o que me caía nas mãos, desde gibis até complicados volumes que eu não entendia mas pegava na biblioteca de meu pai, e lia achando impressionante ou bonito, misterioso ou triste.

Comecei a trabalhar com a nossa língua bastante cedo, traduzindo obras literárias do inglês e do alemão. Mais ou menos nessa época, início dos 20 anos, passei a escrever crônica de jornal, e poemas avulsos, que aos poucos foram sendo publicados em livros, até finalmente iniciar uma carreira de ficcionista já beirando os 40 anos. Antes disso fiz mestrado em linguística, e fui professora dessa matéria em uma faculdade particular durante dez anos.

Não escrevo isso para dar meu currículo, mas para dizer que não desconheço o assunto: ler e escrever são para mim tão naturais quanto respirar, e conheço alguma teoria. Nosso idioma, o português do Brasil, me é íntimo, querido, respeitado, amado - e está em mim como a própria alma. Aliás, a psique se reconhece, se analisa e se expressa através das palavras.

De vez em quando, inventa-se alguma reforma para essa sutil, forte e independente engrenagem. Passei por várias nesses muitos anos, as ortográficas em geral pífias, algumas muito malfeitas. Porém a gente se adapta, até por razões de ofício. Mas, por favor, não tentem defender nosso português de estrangeirismos: a língua não precisa ser defendida. Ela é soberana. Ela é flexível. Ela é viva. Nenhum gramático ou legislador, brilhante ou tacanho, poderá botar essa dama em camisa de força, nem a conter num regime policialesco. Ela continuará sua trajetória, talvez sacudindo a cabeça diante das nossas desajeitadas tentativas de controlá-la.

Como dirá qualquer bom professor de português, ou qualquer linguista dedicado, estudioso, uma parcela imensa dos termos que hoje usamos, que por muito usados pela classe culta foram dicionarizados - o dicionário sempre corre atrás da realidade -, começou como estrangeirismo. Não preciso citar, mas cito, garagem do francês, futebol do inglês, coquetel da mesma forma. A língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu sistema. Botou o “m” final em miragem, por exemplo, porque no nosso sistema as palavras não terminam em “age”.

Muitos termos não podem ser traduzidos: quem diz isso é esta velha tradutora que dedicou a isso milhares de horas de sua vida. E não é possível formar frases decentes, fluidas, claras, expressivas como devem ser as frases, se a cada “estrangeirismo” tivermos de fazer um rodeio, uma explicação da palavra intraduzível. Isso, além do mais, nos colocaria na rabeira do mundo civilizado e globalizado, onde palavras - como objetos de bom uso - circulam de um lado para outro, pousam aqui ou ali, adaptam-se, ou simplesmente passam. Quando não passam, é porque são necessárias, e acabam colocadas entre aspas ou em itálico. Línguas altamente civilizadas usam “estrangeirismos” livremente, sem culpa nem preconceito, como fator de expressividade. Isso nem as humilhou, nem as perverteu: ficaram enriquecidas. Nós é que precisamos lutar contra uma onda terceiro-mundista, uma postura de inferioridade que nos faz gastar energias que poderiam ser aplicadas em algo urgente como um orçamento vinte vezes maior para a educação do nosso povo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Príncipe e seu ingresso no mundo da leitura e da escrita

Eu aos cinco anos - sala de entrada do Castelo

Em função ter nascido em uma cidade muito pequena, no interior do Rio Grande do Sul, o meu acesso a práticas contemporâneas de alfabetização e letramento foi extremamente restrito. Quando criança, o código escrito me desertava interesse, pois sabia que as representações por ele construídas constituíam um elo entre eu, enquanto pessoa, e o mundo dos adultos. Meus pais, quando jovens, cedo tiveram que trabalhar, o que lhes impossibilitou o acesso a altos graus de escolarização. Entretanto, não fora esse fato que impediu que eu também tivesse o mesmo destino. Pelo contrário, exatamente por não terem tido oportunidades de estudos, eles privilegiaram sempre e em qualquer circunstância a minha educação.



O meu acesso à leitura e à escrita, portanto, deu-se na escola, mas muito antes de meu ingresso formal. Na infância, o meu interesse pelo mundo escolar era tanto que eu fugia de casa para ir para a escola. Foi dessa forma que, muito antes do tempo, fui alfabetizado. A partir de então, as descobertas que fazia através da leitura instigavam mais ainda o meu interesse. As histórias da minha cidade - Pedras Altas - e de seu Castelo despertavam-me especial interesse, fazendo com que, nos horários de trabalho dos meus pais, eu me dirigisse ao Castelo Assis Brasil e lá ficasse por horas. Como era muito querido pela família, podia frequentar livremente os cômodos do Castelo, e a biblioteca – com mais de 20 mil exemplares – era um mundo de segredos que eu queria desvendar.

Biblioteca do Castelo Assis Brasil

Em um ambiente histórico e turístico, eu podia contar o que lia e o que ouvia. Contar as histórias da família Assis Brasil, lidas por mim pela primeira vez no Diário de Cecília de Assis Brasil, era a minha maior brincadeira. Receber os turistas e narrar tudo que tinha lido e vivido dentro daqueles cômodos era por demais prazeroso na minha infância. Minha paixão por tudo aquilo era tanto que, aos 12 anos, eu recebia sozinho os turistas que visitavam o Castelo. Enquanto os familiares recebiam um grupo, eu recebia outro, narrando as histórias da família como se a ela também pertencesse.




Foi, portanto, a partir de situações do meu cotidiano que eu pude ingressar no universo da leitura e da escrita, transformando as histórias lidas e vividas em um Castelo na minha própria história. O meu gosto especial pela história de uma família transformou-se na minha história também, fazendo com que eu traçasse meu destino para além daquelas torres.



sábado, 12 de fevereiro de 2011

Adaptação de empréstimos lexicais como consequência da percepção fonológica em primeira língua

BOERSMA, P.; HAMANN, S. Loanword adaptation as first-language phonological perception. In: CALABRESE, A. & WETZELS, W.L. (Org.), Loan phonology. Amsterdam: John Benjamins, 2009, p.11-58.


BOERSMA, P.; HAMANN, S. Adaptação de empréstimos lexicais como consequência da percepção fonológica em primeira língua. In: CALABRESE, A. & WETZELS, W.L. (Org.), Fonologia dos Empréstimos. Amsterdam: John Benjamins, 2009, p.11-58.



Resenhado por Magnun Rochel Madruga (UCPel)




O texto ora resenhado, de autoria de Paul Boersma e Silke Hamman (2009), tem como objetivo principal discutir a adaptação de empréstimos lexicais do Inglês na percepção fonológica dos falantes de Coreano como língua materna. O trabalho dos autores pretende, portanto, verificar como palavras do Inglês adaptam-se e como elas interagem com a fonologia do Coreano. A questão crucial do trabalho está no fato de os Coreanos não realizarem processos fonológicos em contextos favoráveis à aplicação nos itens lexicais do próprio Coreano, mas aplicarem em empréstimos advindos Inglês. Para esclarecer tal questão, os autores utilizam o Modelo Bidirecional de Processamento em Língua Materna, de Boersma (1998, 2000, 2007ab). Tal proposta tem por base um modelo de gramática baseado em restrições e prevê duas direções de processamento, isto é, produção-compreensão e compreensão-produção. Nos parágrafos seguintes, far-se-á uma sucinta explanação das questões levantadas pelos autores, bem como da solução para elas através do modelo teórico que embasa o estudo.

O trabalho está divido em uma seção introdutória que explana o modelo teórico a ser utilizado e mais 7 seções principais, as quais se subdividem conforme a necessidade de aprofundamento nas explicações dos fenômenos estudados. A primeira seção, “Diferenças de superfície entre a fonologia do Coreano e a adaptação de empréstimos”, levanta a questão de os Coreanos aplicarem três processos diferentes militando contra a epêntese nas palavras da sua língua. Os autores afirmam que, de fato, a epêntese é muito mais comum na adaptação de empréstimos lexicais do que fenômeno natural da própria língua. Essa seção traz os três processos mais frequentes que evitam a epêntese e que serão discutidos nas outras seções, sejam os processos os seguintes: neutralização da coda, apagamento e assimilação.

A segunda parte, “Processos fonológicos do Coreano que militam contra a epêntese” , mostra em detalhes os três principais processos usados na produção do Coreano e traz uma abordagem via restrições que pretende unificar a explicação o fenômeno. É digno de nota, portanto, que tanto a neutralização da coda, o apagamento quanto a assimilação militam contra a inserção vocálica nas palavras da gramática da língua.

No caso da neutralização da coda, os autores trazem o exemplo da neutralização ocorrida entre as três plosivas / t /, / th / e / t’ / do Coreano. Um dos exemplos trazidos é o da palavra |path|, cuja produção coreana é /.pat./. Isso demonstra que há neutralização da oposição existente entre os três fonemas plosivos coronais quando em posição de coda. Para dar conta disso, através de restrições, faz-se necessário uma restrição que proíba aspiradas em coda (no caso, */+asp./ ) dominando uma restrição de fidelidade do tipo Ident(asp). O ranking apresentado evidencia que a restrição */+asp./ deve, necessariamente, estar ranqueada acima da restrição de fidelidade Ident(asp) para garantir que o candidato ótimo seja /.pat./. Além disso, ao se considerar um candidato do tipo /pathi/, que apresenta epêntese, é preciso que restrição Dep-V esteja dominando também Ident(asp), já que Dep-V é violada por este candidato. A mesma relação de dominância, portanto, pode ser estabelecida para a neutralização das fricativas estridentes em coda. Assim, uma restrição do tipo */+est./ deve dominar Ident(est). Para o caso de apagamento, processo que satisfaz restrições estruturais do Coreano, em se considerando a forma |kaps|, produzida como / .kap. /, devemos lançar mão de uma restrição do tipo */CC./ – codas complexas são proibidas – dominando a restrição de fidelidade Max-C. Dessa forma, garante-se que o candidato ótimo não apresente codas complexas e nem epêntese, já que Dep-V também deve estar dominando Max-C. Nos casos de assimilação, Boersma e Hamann apontam que a forma subjacente |kuk+min| apresenta assimilação da consoante seguinte, sendo produzida como /.kun.min./ (com  nasal "kun" velarizada). Essa assimilação está relacionada à Lei do Contato Silábico que, para o Coreano, não permite que a consoante da coda tenha sonoridade menor da que a consoante do onset seguinte.

Esses três processos, através de exemplos do Coreano, mostram que a restrição Dep-V domina quatro restrições de fidelidade - Ident(asp), Ident(est), Max-C e Ident(nas) – e uma restrição de marcação, */C./. Essa hierarquia, em que Dep-V está altamente ranqueada na gramática do Coreano, faz com que a inserção vocálica não seja um processo produtivo na fonologia da língua. No entanto, quando se trata de percepção, os falantes apresentam formas fonéticas epentetizadas na produção de empréstimos do Inglês.

Na seção 3, “Percepção dos sons do Inglês por Coreanos: epentêse”, os autores afirmam que as produções coreanas das palavras do Inglês apresentam epêntese em função de que os ouvintes inserem vogais nas formas fonético-auditivas das palavras do Inglês. Conforme os autores, a percepção das palavras do Inglês é mapeada com epêntese da forma fonético-auditiva para a estrutura fonológica de superfície. É importante referir que, nesse ponto da análise, os autores estão no momento da compreensão, enquanto na seção anterior concentraram-se apenas na rota da produção. Além disso, nessa direção, utilizam-se também restrições de pistas fonéticas (*CUE) que têm a função de ligar a forma fonético-auditiva à forma fonológica de superfície. Assim, a percepção é formalizada pela interação de restrições de pistas e restrições de marcação; as restrições de pistas avaliam a relação entre o input da percepção (forma fonético-auditivo) e o output da percepção (forma fonológica de superfície), enquanto as restrições de marcação avaliam apenas o output do segundo. Em (1), podemos verificar a estrutura básica do modelo para que, desse modo, possamos deixar mais claro o seu funcionamento e os tipos de restrições utilizadas (*CUE, *STRUCT, *FAITH) .

(1)


Figura 1 – Modelo para o processamento de L1 e para adaptação de empréstimos.



Na rota da compreensão, o input – representado com transcrição fonética estreita – é a forma fonético-auditiva. Desse modo, pode-se tratar com maiores detalhes o resultado da rota de produção. Além disso, as restrições de pistas interagem com as restrições de marcação, ou seja, a percepção é fortemente conduzida pela interação com a fonologia. Em função disso, na formulação dos tableaux, as restrições de pistas aprecem em interação com as restrições de marcação, formando restrições do tipo *[h] /-asp/ (um ruído de aspiração não deve ser percebido como o traço /- asp /) . Em (2), o tableau elaborado pelos autores é explicativo sobre o funcionamento da percepção do /t/ inicial do Inglês; o candidato ótimo é a produção coreana. Importante observar o papel das restrições de pistas na escolha do ótimo.

(2)


Tableau 1 – Percepção coreana do /t/ inicial do Inglês.



Nesse tableau, embora não haja ranqueamento entre as restrições, o candidato vencedor sempre será o que apresenta a forma aspirada /th/. Tal fato se dá em função de que /th/ não fere nenhuma das restrições, enquanto os outros candidatos ferem uma ou mais. No entanto, quando da percepção do /d/ do Inglês, o candidato ótimo sempre será /t/; a forma /to/ vence porque / tho/ fere a restrição *[no noise] /+asp/ (a ausência de ruído não deve ser percebida como o traço /+asp/). Assim, através desse tipo de formalização, os autores conseguem mostrar que na percepção as restrições de marcação desempenham o mesmo papel que na produção, só que na percepção interagem com as restrições de pistas e não com as restrições de fidelidade. Elas desempenham, portanto, papel crucial na mediação entre a categorização fonológica e a percepção. Conforme os autores, em Teoria da Otimidade, isso não é uma ideia nova, estando relacionada ao conceito de “parsing interpretativo robusto” (Tesar,1997, Tesar & Smolensky 2000).

Em “Percepção, armazenamento e produção dos empréstimos do Inglês no Coreano”, quarta seção, Boersma e Hamann abordam principalmente a questão do armazenamento, por parte dos falantes nativos do Coreano, dessas palavras emprestadas do Inglês. Afirmam, ainda, que esse processo deve se dar da mesma forma que o armazenamento das palavras de sua língua materna. Esse processo de estocagem de uma nova palavra os autores chamam de “reconhecimento” e está previsto no modelo teórico adotado por eles. No reconhecimento, as restrições de fidelidade garantem que o ouvinte armazene no lexicon formas completamente fiéis ao input da percepção. Nesse caso, as formas subjacentes dos empréstimos apresentarão epêntese; já armazenadas na fonologia do Coreano, poderão apresentar variação.

Na quinta seção, “Alternância nativa nos empréstimos”, os autores afirmam que esperar-se-ia que as formas armazenadas fossem completamente fiéis ao input da percepção, já que as restrições de fidelidade são o único tipo de restrição envolvida no processo de reconhecimento. Contudo, é exatamente em casos que contrariam a afirmação anterior que os autores debruçam-se nessa seção, isto é, discutem casos em que as restrições de fidelidade são violadas na adaptação dos empréstimos de Inglês. Para as palavras nativas do Coreano, em caso de ambiguidade entre formas, as restrições lexicais (*LEX) são responsáveis por ligar a forma subjacente ao morfema da palavra, devendo expressar que um morfema está mais fortemente ligado a determinada palavra. Entra aí, o papel do algoritmo de aprendizagem e da frequência lexical. Entretanto, para os empréstimos, em função de não estarem no lexicon, as restrições lexicais não podem ajudar a solucionar problemas de infidelidade entre formas. O candidato vencedor, portanto, será determinado pela frequência; o ranqueamento das restrições de fidelidade será dependente da frequência e causará a adaptação dos empréstimos ao determinar a unidade final subjacente que mais frequentemente corresponde ao morfema no resto do vocabulário.

Nas duas últimas seções, Boersma e Hamann comparam o modelo utilizado por eles nesse estudo com outros modelos teóricos e, finalmente, trazem algumas questões pendentes, além de apresentarem o ranqueamento final. Na seção 6, “Comparação com outros modelos”, os autores afirmam que o Modelo Bidirecional consegue dar conta economicamente da adaptação dos empréstimos em função de que não lança mão de rankings ou restrições específicas para tal fenômeno, além de tratar da percepção como fenômeno fonológico. Nesse sentido, concluem que os três níveis e representação são necessários para dar conta das exigências impostas pela fonologia da L1 quanto da fonética, além de permitir que as restrições de marcação desempenhem papel fundamental tanto na produção quanto na percepção. Na “Discussão”, seção 7, os autores dedicam-se a questionar a real necessidade das restrições de marcação na formalização da percepção, já que elas podem ser substituídas por restrições de pistas que considerem informações de estrutura. Além disso, observam que os empréstimos frequentemente introduzem problemas de ordem fonotática, trazendo implicações para a percepção, a ser resolvida pelo ranqueamento das restrições de pista devendo estar acima das restrições de marcação. Outro ponto levantado é adaptação de empréstimos por falantes bilíngues. A última subseção é a apresentação do ranking final que contém todas as restrições utilizadas no estudo, podendo ser dividido, conforme indicam os autores, em 4 estratos.

O estudo, até então resumido, objetivou tratar a percepção do ponto de vista fonológico, levando em consideração o modo como os Coreanos categorizam e armazenam os empréstimos linguísticos do Inglês. Para isso, os autores utilizaram um modelo teórico que baseia-se nos pressupostos da Teoria da Otimidade. Parece pertinente, no entanto, afirmar que, embora consigam acomodar fatos que envolvem a percepção na gramática, o modelo torna-se caro ao assumir 4 diferentes tipos diferentes de restrições, interagindo em níveis diferentes de processamento. As restrições de pistas (*CUE) parecem as mais pesadas ao modelo, pois, pelo fato de serem fonéticas, introduzem uma possibilidade enorme de restrições, já que a produção fonética envolve fatores físicos que muitas vezes não podem ser modelados em termos discretos.

Outro ponto importante a ser discutido é o fato de o modelo adotar três níveis de representação, o que torna os processos de produção e percepção extremamente dependentes dos inputs de cada nível. Além disso, a utilização da frequência na solução da ambiguidade entre a forma subjacente e o morfema coloca uma questão paradoxal entre a teoria e a solução dada para o problema que surge na fase de reconhecimento em função de que, embora se possa utilizar informação de frequência, o modelo é fundamentalmente baseado em restrições. A escolha do candidato ótimo deveria, portanto, ser feita através da formalização dos tableaux. A utilização da frequência no modelo bidirecional acaba funcionando de forma ad hoc na escolha do candidato ótimo.

O trabalho de Boersma e Hamann, entretanto, tem o grande mérito de comensurar fonética e fonologia, possibilitando formalizar de forma bastante plausível fenômenos correntes nas línguas do mundo. A adaptação de empréstimos é fenômeno cada vez mais presente nas línguas muito em função da globalização e é, por isso, fenômeno importante para os linguistas, além do fato de muito revelar sobre a organização das gramáticas. O trabalho dos autores, embora complexo e de leitura difícil, é extremamente coerente em termos teóricos, o que faz com que a análise feita por eles seja coesa em todo o texto. Deve, portanto, ser leitura obrigatória não só para estudantes de pós-graduação em Linguística, mas para todos aqueles interessados em processamento de fala e principalmente para pesquisadores que acreditam na integração da fonética na fonologia. 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Educação versus Escolaridade

Tenho tido cada vez mais certeza: educação é totalmente diferente de escolaridade. Parece óbvio, mas a gente se confunde com essas coisas, porque tendemos a respeitar mais as pessoas letradas e eruditas. Postura essa talvez hipócrita e preconceituosa, mas, na minha observação do comportamento humano, ela reiteradamente aparece. Quero dizer é que damos muito valor àqueles que estudaram e relegamos à margem os que não tiveram tal sorte. No Brasil, estudar é mérito, o que, na verdade, deveria ser comum. De fato, a alta escolaridade e o estudo são dignos de valor, mas o que me intriga é a questão de avaliarmos as pessoas pelo grau, pelo título e pelo status que essas coisas projetam.


Não posso falar por todas as pessoas, mas venho observando que fazemos essa confusão básica entre educação e escolaridade. A educação é amor, é respeitar o próximo, independentemente do título, da profissão. E isso não se adquire em qualquer faculdade; é aquela máxima: “educação vem de berço”, mas independe se de uma manjedoura ou de um berço de ouro. A educação emerge na nossa família, na relação de amor e de respeito entre pai e filho. Não é uma sequência de conquistas anuais, mas um contínuo aprendizado de respeito das potencialidades do comportamento humano. Na verdade, a educação é compreensão e não avaliação; compreensão daquilo que é diferente, do que não temos condições de entender ainda. E não podemos dizer que somos seres educados, pois não somos. Enquanto persistirmos em avaliar as pessoas sem as conhecer, continuaremos a não entender o próprio Homem, com suas manifestações culturais de toda ordem.

E por não entendermos o que é a educação, é que julgamos as pessoas pelo seu grau acadêmico, porque, em princípio, ele é garantia de que algum valor humano. O que não quer dizer nada; caso contrário, não presenciaríamos episódios de jovens universitários incitando à violência contra homossexuais, nordestinos, negros, mulheres etc. Pura intolerância e desrespeito ao próximo. Pessoas como essas são seres sem um mínino de educação, de compreensão da sociedade contemporânea e cada vez mais global em que vivem. Ter alta escolaridade, entretanto, não é demérito, mas é preciso que ela nos mude como homens. O papel das instituições de ensino, muito além de nos preparar para o trabalho, é nos formar no sentido humano da coisa. E formar não é por em fôrma e dizer que alguém está pronto, mas é tão-só um termo indicativo de que é necessária uma relação entre a nossa formação e os nossos comportamentos cotidianos.

Educação é tudo, mas a escolaridade, às vezes, não nos diz muito. Contudo, não há nada que impeça alguém de ter uma formação acadêmica excelente e ser uma pessoa extremante educada. Digo, no entanto, que isso nem sempre acontece. Precisamos ficar atentos à nossa própria avaliação das coisas, pois tudo começa por aí. Deixando de avaliar, passando a compreender. A diferença básica entre educação e escolaridade está na postura diária, nas ações mais corriqueiras; está no ato de entregar a xícara do café à atendente, sorrir e dizer: muito obrigado!