sábado, 12 de fevereiro de 2011

Adaptação de empréstimos lexicais como consequência da percepção fonológica em primeira língua

BOERSMA, P.; HAMANN, S. Loanword adaptation as first-language phonological perception. In: CALABRESE, A. & WETZELS, W.L. (Org.), Loan phonology. Amsterdam: John Benjamins, 2009, p.11-58.


BOERSMA, P.; HAMANN, S. Adaptação de empréstimos lexicais como consequência da percepção fonológica em primeira língua. In: CALABRESE, A. & WETZELS, W.L. (Org.), Fonologia dos Empréstimos. Amsterdam: John Benjamins, 2009, p.11-58.



Resenhado por Magnun Rochel Madruga (UCPel)




O texto ora resenhado, de autoria de Paul Boersma e Silke Hamman (2009), tem como objetivo principal discutir a adaptação de empréstimos lexicais do Inglês na percepção fonológica dos falantes de Coreano como língua materna. O trabalho dos autores pretende, portanto, verificar como palavras do Inglês adaptam-se e como elas interagem com a fonologia do Coreano. A questão crucial do trabalho está no fato de os Coreanos não realizarem processos fonológicos em contextos favoráveis à aplicação nos itens lexicais do próprio Coreano, mas aplicarem em empréstimos advindos Inglês. Para esclarecer tal questão, os autores utilizam o Modelo Bidirecional de Processamento em Língua Materna, de Boersma (1998, 2000, 2007ab). Tal proposta tem por base um modelo de gramática baseado em restrições e prevê duas direções de processamento, isto é, produção-compreensão e compreensão-produção. Nos parágrafos seguintes, far-se-á uma sucinta explanação das questões levantadas pelos autores, bem como da solução para elas através do modelo teórico que embasa o estudo.

O trabalho está divido em uma seção introdutória que explana o modelo teórico a ser utilizado e mais 7 seções principais, as quais se subdividem conforme a necessidade de aprofundamento nas explicações dos fenômenos estudados. A primeira seção, “Diferenças de superfície entre a fonologia do Coreano e a adaptação de empréstimos”, levanta a questão de os Coreanos aplicarem três processos diferentes militando contra a epêntese nas palavras da sua língua. Os autores afirmam que, de fato, a epêntese é muito mais comum na adaptação de empréstimos lexicais do que fenômeno natural da própria língua. Essa seção traz os três processos mais frequentes que evitam a epêntese e que serão discutidos nas outras seções, sejam os processos os seguintes: neutralização da coda, apagamento e assimilação.

A segunda parte, “Processos fonológicos do Coreano que militam contra a epêntese” , mostra em detalhes os três principais processos usados na produção do Coreano e traz uma abordagem via restrições que pretende unificar a explicação o fenômeno. É digno de nota, portanto, que tanto a neutralização da coda, o apagamento quanto a assimilação militam contra a inserção vocálica nas palavras da gramática da língua.

No caso da neutralização da coda, os autores trazem o exemplo da neutralização ocorrida entre as três plosivas / t /, / th / e / t’ / do Coreano. Um dos exemplos trazidos é o da palavra |path|, cuja produção coreana é /.pat./. Isso demonstra que há neutralização da oposição existente entre os três fonemas plosivos coronais quando em posição de coda. Para dar conta disso, através de restrições, faz-se necessário uma restrição que proíba aspiradas em coda (no caso, */+asp./ ) dominando uma restrição de fidelidade do tipo Ident(asp). O ranking apresentado evidencia que a restrição */+asp./ deve, necessariamente, estar ranqueada acima da restrição de fidelidade Ident(asp) para garantir que o candidato ótimo seja /.pat./. Além disso, ao se considerar um candidato do tipo /pathi/, que apresenta epêntese, é preciso que restrição Dep-V esteja dominando também Ident(asp), já que Dep-V é violada por este candidato. A mesma relação de dominância, portanto, pode ser estabelecida para a neutralização das fricativas estridentes em coda. Assim, uma restrição do tipo */+est./ deve dominar Ident(est). Para o caso de apagamento, processo que satisfaz restrições estruturais do Coreano, em se considerando a forma |kaps|, produzida como / .kap. /, devemos lançar mão de uma restrição do tipo */CC./ – codas complexas são proibidas – dominando a restrição de fidelidade Max-C. Dessa forma, garante-se que o candidato ótimo não apresente codas complexas e nem epêntese, já que Dep-V também deve estar dominando Max-C. Nos casos de assimilação, Boersma e Hamann apontam que a forma subjacente |kuk+min| apresenta assimilação da consoante seguinte, sendo produzida como /.kun.min./ (com  nasal "kun" velarizada). Essa assimilação está relacionada à Lei do Contato Silábico que, para o Coreano, não permite que a consoante da coda tenha sonoridade menor da que a consoante do onset seguinte.

Esses três processos, através de exemplos do Coreano, mostram que a restrição Dep-V domina quatro restrições de fidelidade - Ident(asp), Ident(est), Max-C e Ident(nas) – e uma restrição de marcação, */C./. Essa hierarquia, em que Dep-V está altamente ranqueada na gramática do Coreano, faz com que a inserção vocálica não seja um processo produtivo na fonologia da língua. No entanto, quando se trata de percepção, os falantes apresentam formas fonéticas epentetizadas na produção de empréstimos do Inglês.

Na seção 3, “Percepção dos sons do Inglês por Coreanos: epentêse”, os autores afirmam que as produções coreanas das palavras do Inglês apresentam epêntese em função de que os ouvintes inserem vogais nas formas fonético-auditivas das palavras do Inglês. Conforme os autores, a percepção das palavras do Inglês é mapeada com epêntese da forma fonético-auditiva para a estrutura fonológica de superfície. É importante referir que, nesse ponto da análise, os autores estão no momento da compreensão, enquanto na seção anterior concentraram-se apenas na rota da produção. Além disso, nessa direção, utilizam-se também restrições de pistas fonéticas (*CUE) que têm a função de ligar a forma fonético-auditiva à forma fonológica de superfície. Assim, a percepção é formalizada pela interação de restrições de pistas e restrições de marcação; as restrições de pistas avaliam a relação entre o input da percepção (forma fonético-auditivo) e o output da percepção (forma fonológica de superfície), enquanto as restrições de marcação avaliam apenas o output do segundo. Em (1), podemos verificar a estrutura básica do modelo para que, desse modo, possamos deixar mais claro o seu funcionamento e os tipos de restrições utilizadas (*CUE, *STRUCT, *FAITH) .

(1)


Figura 1 – Modelo para o processamento de L1 e para adaptação de empréstimos.



Na rota da compreensão, o input – representado com transcrição fonética estreita – é a forma fonético-auditiva. Desse modo, pode-se tratar com maiores detalhes o resultado da rota de produção. Além disso, as restrições de pistas interagem com as restrições de marcação, ou seja, a percepção é fortemente conduzida pela interação com a fonologia. Em função disso, na formulação dos tableaux, as restrições de pistas aprecem em interação com as restrições de marcação, formando restrições do tipo *[h] /-asp/ (um ruído de aspiração não deve ser percebido como o traço /- asp /) . Em (2), o tableau elaborado pelos autores é explicativo sobre o funcionamento da percepção do /t/ inicial do Inglês; o candidato ótimo é a produção coreana. Importante observar o papel das restrições de pistas na escolha do ótimo.

(2)


Tableau 1 – Percepção coreana do /t/ inicial do Inglês.



Nesse tableau, embora não haja ranqueamento entre as restrições, o candidato vencedor sempre será o que apresenta a forma aspirada /th/. Tal fato se dá em função de que /th/ não fere nenhuma das restrições, enquanto os outros candidatos ferem uma ou mais. No entanto, quando da percepção do /d/ do Inglês, o candidato ótimo sempre será /t/; a forma /to/ vence porque / tho/ fere a restrição *[no noise] /+asp/ (a ausência de ruído não deve ser percebida como o traço /+asp/). Assim, através desse tipo de formalização, os autores conseguem mostrar que na percepção as restrições de marcação desempenham o mesmo papel que na produção, só que na percepção interagem com as restrições de pistas e não com as restrições de fidelidade. Elas desempenham, portanto, papel crucial na mediação entre a categorização fonológica e a percepção. Conforme os autores, em Teoria da Otimidade, isso não é uma ideia nova, estando relacionada ao conceito de “parsing interpretativo robusto” (Tesar,1997, Tesar & Smolensky 2000).

Em “Percepção, armazenamento e produção dos empréstimos do Inglês no Coreano”, quarta seção, Boersma e Hamann abordam principalmente a questão do armazenamento, por parte dos falantes nativos do Coreano, dessas palavras emprestadas do Inglês. Afirmam, ainda, que esse processo deve se dar da mesma forma que o armazenamento das palavras de sua língua materna. Esse processo de estocagem de uma nova palavra os autores chamam de “reconhecimento” e está previsto no modelo teórico adotado por eles. No reconhecimento, as restrições de fidelidade garantem que o ouvinte armazene no lexicon formas completamente fiéis ao input da percepção. Nesse caso, as formas subjacentes dos empréstimos apresentarão epêntese; já armazenadas na fonologia do Coreano, poderão apresentar variação.

Na quinta seção, “Alternância nativa nos empréstimos”, os autores afirmam que esperar-se-ia que as formas armazenadas fossem completamente fiéis ao input da percepção, já que as restrições de fidelidade são o único tipo de restrição envolvida no processo de reconhecimento. Contudo, é exatamente em casos que contrariam a afirmação anterior que os autores debruçam-se nessa seção, isto é, discutem casos em que as restrições de fidelidade são violadas na adaptação dos empréstimos de Inglês. Para as palavras nativas do Coreano, em caso de ambiguidade entre formas, as restrições lexicais (*LEX) são responsáveis por ligar a forma subjacente ao morfema da palavra, devendo expressar que um morfema está mais fortemente ligado a determinada palavra. Entra aí, o papel do algoritmo de aprendizagem e da frequência lexical. Entretanto, para os empréstimos, em função de não estarem no lexicon, as restrições lexicais não podem ajudar a solucionar problemas de infidelidade entre formas. O candidato vencedor, portanto, será determinado pela frequência; o ranqueamento das restrições de fidelidade será dependente da frequência e causará a adaptação dos empréstimos ao determinar a unidade final subjacente que mais frequentemente corresponde ao morfema no resto do vocabulário.

Nas duas últimas seções, Boersma e Hamann comparam o modelo utilizado por eles nesse estudo com outros modelos teóricos e, finalmente, trazem algumas questões pendentes, além de apresentarem o ranqueamento final. Na seção 6, “Comparação com outros modelos”, os autores afirmam que o Modelo Bidirecional consegue dar conta economicamente da adaptação dos empréstimos em função de que não lança mão de rankings ou restrições específicas para tal fenômeno, além de tratar da percepção como fenômeno fonológico. Nesse sentido, concluem que os três níveis e representação são necessários para dar conta das exigências impostas pela fonologia da L1 quanto da fonética, além de permitir que as restrições de marcação desempenhem papel fundamental tanto na produção quanto na percepção. Na “Discussão”, seção 7, os autores dedicam-se a questionar a real necessidade das restrições de marcação na formalização da percepção, já que elas podem ser substituídas por restrições de pistas que considerem informações de estrutura. Além disso, observam que os empréstimos frequentemente introduzem problemas de ordem fonotática, trazendo implicações para a percepção, a ser resolvida pelo ranqueamento das restrições de pista devendo estar acima das restrições de marcação. Outro ponto levantado é adaptação de empréstimos por falantes bilíngues. A última subseção é a apresentação do ranking final que contém todas as restrições utilizadas no estudo, podendo ser dividido, conforme indicam os autores, em 4 estratos.

O estudo, até então resumido, objetivou tratar a percepção do ponto de vista fonológico, levando em consideração o modo como os Coreanos categorizam e armazenam os empréstimos linguísticos do Inglês. Para isso, os autores utilizaram um modelo teórico que baseia-se nos pressupostos da Teoria da Otimidade. Parece pertinente, no entanto, afirmar que, embora consigam acomodar fatos que envolvem a percepção na gramática, o modelo torna-se caro ao assumir 4 diferentes tipos diferentes de restrições, interagindo em níveis diferentes de processamento. As restrições de pistas (*CUE) parecem as mais pesadas ao modelo, pois, pelo fato de serem fonéticas, introduzem uma possibilidade enorme de restrições, já que a produção fonética envolve fatores físicos que muitas vezes não podem ser modelados em termos discretos.

Outro ponto importante a ser discutido é o fato de o modelo adotar três níveis de representação, o que torna os processos de produção e percepção extremamente dependentes dos inputs de cada nível. Além disso, a utilização da frequência na solução da ambiguidade entre a forma subjacente e o morfema coloca uma questão paradoxal entre a teoria e a solução dada para o problema que surge na fase de reconhecimento em função de que, embora se possa utilizar informação de frequência, o modelo é fundamentalmente baseado em restrições. A escolha do candidato ótimo deveria, portanto, ser feita através da formalização dos tableaux. A utilização da frequência no modelo bidirecional acaba funcionando de forma ad hoc na escolha do candidato ótimo.

O trabalho de Boersma e Hamann, entretanto, tem o grande mérito de comensurar fonética e fonologia, possibilitando formalizar de forma bastante plausível fenômenos correntes nas línguas do mundo. A adaptação de empréstimos é fenômeno cada vez mais presente nas línguas muito em função da globalização e é, por isso, fenômeno importante para os linguistas, além do fato de muito revelar sobre a organização das gramáticas. O trabalho dos autores, embora complexo e de leitura difícil, é extremamente coerente em termos teóricos, o que faz com que a análise feita por eles seja coesa em todo o texto. Deve, portanto, ser leitura obrigatória não só para estudantes de pós-graduação em Linguística, mas para todos aqueles interessados em processamento de fala e principalmente para pesquisadores que acreditam na integração da fonética na fonologia. 


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