sexta-feira, 24 de abril de 2015

Pedras Altas: o que o assassinato do Laion tem a nos ensinar?


Este post não é sobre a morte do Laion, nem sobre a prisão do Paulo, mas sobre Pedras Altas. Esses fatos são o ponto de partida para a minha reflexão, mas não o fim.

Acho que todos nós, de alguma maneira, sempre ficamos tristes quando algum pedrasaltense morre, seja porque temos uma relação de afeto com a pessoa, seja porque ela era simplesmente nossa conterrânea e do nosso convívio. Querendo ou não, gostando ou não, estamos todos nós ligados de forma quase íntima. Nos vemos todo dia, acompanhamos a história das pessoas, temos afinidade com umas e não temos com outras. Tudo isso é normal e existe em qualquer relação interpessoal. O problema surge quando, diante de uma tragédia como foi a morte do Laion, assassinado por uma pessoa que por nossa cidade foi acolhida (muito bem, digamos), naturalizamos o assassinato. É só mais uma pessoa que morre, é só mais um assassinato, é natural... Não, isso não é natural. É naturalizado pela nossa cultura coronelista, que faz com que consideremos normal as pessoas acharem que têm o direito de fazer justiça com as próprias mãos, que podem tirar satisfações de qualquer modo e em qualquer lugar. E isso vai de uma briga na escola, de uma briga no baile, no rodeio, enfim. Essa é nossa cultura, infelizmente.

Eu sinceramente penso que nós perdemos de vista noção de "lugar onde queremos viver". Que cidade é Pedras Altas? Que cidade nós queremos que Pedras Altas seja? Alguém tem essa resposta? Nós paramos para discutir isso? Isso é importante ou nós queremos resolver apenas o nosso problema, depois o resto?

Lembro quando não éramos emancipados, conseguimos a emancipação graças à união dos pedrasaltenses. Alguém lembra das reuniões da Associação dos Moradores de Pedras Altas? Ainda, depois de emancipados, no início do governo Silvio, lembro de participar de reuniões em que a pauta era justamente discutir aquilo que Pedras Altas queria. Nosso time está perdendo, minha gente. Se ganhamos no futebol em Torres ou em algum campeonato, estamos levando de 7x1 na construção de uma Pedras Altas melhor. Há anos!!!

Nossa cidade é palco de um jogo político dos mais sujos e cruéis. Há quem, por oportunismo, esteja se regozijando da prisão do Paulo porque ele era do PSDB, como se isso deixasse o jogo 0x0 com a prisão do ex-vereador Adão. Isso é tão mesquinho, como é insensível. Há, antes disso, uma família que perdeu um ente, uma mãe que perdeu um filho. Parem, por favor.

Eu sei também que não sou a melhor pessoa para tecer qualquer crítica ao convívio dos pedrasaltenses, mas o fato de estar fora me dá uma certa visão das coisas que quem está aí muitas vezes não enxerga pela relação de proximidade com os fatos. As pessoas perderam a voz, perderam a capacidade de organizar mudanças coletivas. O poder cegou muita gente; aqueles que venceram calaram os outros. Mas se queremos uma cidade democrática, temos que viver a democracia e para isso precisamos de embate. Precisamos de fóruns públicos sobre saúde, educação, agricultura, economia, e principalmente sobre segurança/violência. A Pedras Altas que queremos tem que ser colocada em pauta. Já! De forma coletiva.

Para finalizar, só para lembrar alguns assassinatos que chocaram Pedras Altas: (1) Faustino, morto pelo neto; (2) Santo Cardoso, assassinado em um rodeio; (3) Cláudio 'Manchinha', brutalmente assassinado pelas costas quando chegava em casa (3) Nereu, morto em um aniversário de família (4) Laion, um adolescente. Esses são alguns de que lembro. Embora eu ache que não exista motivo para matar ninguém, todos eles foram por motivos torpes. E nós apenas assistimos a isso, encarando cada um deles como mais uma tragédia que naturalmente acontece em qualquer lugar. Sim, acontece de fato, mas nós vamos continuar aceitando isso em uma cidade que não tem nem 2 mil habitantes, sendo que a maioria ainda é da zona rural? Que comunidade nós somos? Que comunidade queremos ser? Ou deixamos de pensar como comunidade? Temos respostas?

Se não, minha sugestão é que se organize um fórum municipal de debate público que englobe os aspectos mencionados no texto e nele participem: (a) professores, diretores de escola e Sec.Educação, discutindo a realidade da educação pedrasaltense; (2) médicos pedrasaltenses e responsáveis pela Saúde; (3) Promotores públicos e Polícia Militar, e assim por diante. É um passo para construirmos coletivamente nossa cidade. Precisamos por Pedras Altas para discutir. E isso se faz em conjunto.